quarta-feira, 4 de março de 2009

Portugal - Castiça política.

Portugal tem um défice democrático.


Não me refiro à política local, amiga do compadrio, da corrupção, do populismo, do desgoverno. Também não me refiro à forma como se acede ao poder. Através de partidos que distribuem o poder oligarquicamente entre os que escolheram investir o seu tempo em partidos e juventudes partidárias. É um sistema. Não é perfeito. Não conhecemos melhor. Tem funcionado noutras partes do mundo.

Refiro-me à falta de discussão política, de ideias e de projectos fundamentais para a simples manutenção de um Estado com tradição democrática, democracia estável, madura e confiável.

Pois é, a democracia é um animal que se alimenta de discussão e de ideias, de participação política e cívica, de movimento, mudança e renovação social.


A seguinte citação fez-me questionar-me sobre a saúde da nossa democracia:

"The death of democracy is not likely to be an assassination from ambush. It will be a slow extinction from apathy, indifference and undernourishment" - Robert Maynard Hutchings - Presidente da Universidade de Chicago.

É fácil reparar que por cá, não tem havido discussão política acerca de assuntos que não sejam lançados pelo Governo. O último: casamento entre homossexuais - e o anterior - liberalização do aborto; foram ambos lançados e defendidos pelo Governo.
Que outros assuntos têem sido discutidos em Portugal? Caso Freeport, Caso independente e (muito) pouco mais. Na maior parte dos casos discutem-se episódios como: se o Primeiro Ministro vai a uma reunião europeia ou fica em Portugal a fazer pré-campanha.

Dá a ideia que Sócrates nos atira com umas propostas fracturantes para nós roermos enquanto ele lida com a realpolitik, mal necessário e que o povo, ignorante e sereno, não deve tentar compreender. Dá a ideia de que a oposição não sabe, não pode porque não sabe ou não quer fazer melhor.


Uma vez que a maior parte das questões que são levantadas ao Governo, no Parlamento, são-no pelo Bloco de Esquerda, essas questões passam também um pouco ao lado da maioria dos portugueses que não se revêem particularmente (embora cada vez mais) nas propostas deste.

Isto é mais fácil de verificar se olharmos para os discursos de retaliação que Sócrates dedica a Louçã e a referência que faz a Manuela Ferreira, parece que por cortesia, durante o Congresso do PS. É curioso notar como o princípal partido da oposição não faz oposição, não procura alternativas, não ameaça, não inova nas propostas nem na oposição.


As críticas de Manuela Ferreira Leite são as mesmas há já alguns meses mas ela parece paralisada pelo medo da demagogia e do populismo. Não desenvolveu um estratégia alternativa que faça Socrates correr "the extra mile". É que o papel da oposição não é substituír o Governo em funções ao fim dos 4 ou dos 8 anos do(s) mandato(s). O papel da oposição, é exigir mais e melhor, se não for através dum plano alternativo, que seja através da discussão, do desafio, do causar desconforto e medo dum julgamento implacável se as políticas falharem ou forem inócuas na sua concepção.

Manuela Ferreira Leite e o PSD não fazem nada disso. Eles são contra os investimentos na alta-velocidade e no aeroporto, Assim como foram contra a realização do Euro2004, que nos deixou cheios de estádios novos e a mesma pobreza, embora ninguém se arrependa do Euro2004.

O problema é que não vemos um plano alternativo. Uma vez que não se investe nesse aeroporto e nessa alta-velocidade, como podemos fazer esse dinheiro chegar às PME's a taxas de juro comparáveis às que o Estado tem? Pelo menos para isso podiam esboçar uma resposta...

Em relação à politica orçamental e a despesa na Alta-velocidade e OTA, a líder da oposição já disse: "A história vai-me dar razão!" Só se esquece que a história ignora, sobranceira, as pessoas irrelevantes.

Portugal tem uma política muito futebolística e muitas vezes vejo pessoas a defender partidos como se esses partidos fossem o seu clube de futebol mesmo que esses partidos nunca lhes tenham dado nada, e que não saibam muito bem o que têm feito. É-se de direita porque se é religioso ou porque se gosta(va) de ser de boas famílias. Ou por causa do Sá Carneiro e porque não se gosta do Soares.
É-se de esquerda por causa do Salazar e da PIDE. Porque não se gosta de ter pena dos pobrezinhos. Ou porque não se gosta da corrupção e dos autarcas gordos e de charuto na mão, que são de direita!

O verdadeiro problema no entanto é que em Portugal ser de esquerda, particularmente do PS, é como ser do FCPorto. Cá dentro, não se encontra competição! Essa competição não dá pica..
Até ao dia...

Hugo Paula.

3 comentários:

  1. Começo a perceber por que é que te baldas às aulas...

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  2. Ena, o primeiro artigo do tidonemachado!!! Segue fogo, é bem!

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  3. análise muito boa sobre o estado da política portuguesa e de portugal em geral... escreves muito bem : )

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