terça-feira, 24 de março de 2009

emaranhado de coisas avulsas

"Maddof enfrenta pena de prisão perpétua."

O acompanhamento de casos mediáticos, como o julgamento de Madoff não se devem à nossa preocupação com a saúde do nosso sistema judicial, interesse pela rectidão moral da sociedade e sanidade mental da magistratura... Deve-se à curiosidade mórbida e ao subtil desejo de vingança que nos impele a pensar ou desabafar: bem feito!, quando recebemos a notícia de que algum malvado recebeu o castigo que merecia.

No mundo civilizado em que vivemos não há cão nem gato que não diga respeitar e confiar profundamente na justiça, instituíção fundamental para que exista Estado de Direito. Pessoalmente acredito que o respeito pela justiça que muitos anunciam por aí, deve-se mais à sua propriedade de coercibilidade do que ao puro respeito pelo direito de outrem. Mas se se confía tanto na justiça porque estamos sempre a escrutiná-la?

Acontece que o mundo já viu muitos malvados.

André Jordan veio hoje lembrar no Jornal de Negócios que "o espectacular caso Madoff (...) já conteceu antes." No caso: Robert Vesco que assumiu o controlo da gestão de uns hedge funds e fugiu com dinheiro que tinha sido investido por clientes. Roberto Vesco fugiu para a Costa Rica e depois para Cuba, onde morreu em liberdade (só não podia saír de Cuba) há um ano atrás.

Para mim há duas diferenças fundamentais entre Madoff e Robert Vesco:
A 1ª. - Robert Vesco morreu em Cuba, Madoff poderá morrer na prisão.
A 2ª. - Madoff causou muito mais prejuízo e displicentemente geriu a sua burla debaixo do nariz das autoridades dos EUA, durante décadas.

Bernard Madoff é considerado culpado dum velho crime que já ninguém devia poder cometer. O esquema Dona Branca é um truque tão velho que ninguém imaginou plausível dadas as proporções que tomou e os clientes particulares e públicos que tinha, dada a sofisticação do meio em que se movia, da elevação técnica dos instrumentos que se suponha utilizar, da ética e estatura de um homem que já tinha sido presidente da SEC, de alguém acima de qualquer suspeita.

Madoff é um desses homens com um talento especial para conquistar a nossa confiança. Alguém a quem gostaríamos de confiar parte do nosso destino. Um homem cujo limite da competência parece não conhecer desafios à altura, para num golpe de face se perceber que a competência não é o único factor escasso necessário para se confiar em alguém.

A história tende a repetir-se. Toda a gente sabe isso e se olharmos para o passado recente podemos voltar a constatá-lo. O problema é que pessoas comuns, como eu ou tu, não sabem que partes da história se vão repetir nem quando. Na verdade, a história pode não nos ajudar muito a prever factos ou acontecimentos isolados. É uma ciência retroactiva. Conhecer a história é conhecer exemplos o que nos pode dar, ou não, condições para ver relações de causa e efeito na nossa realidade e no nosso tempo. No entantao a história diz-nos, básicamente, que o ser humano tem mais dificuldade em aprender com os erros do que costumamos supôr.


Ora se nós não estamos a ficar muito mais espertos à medida que a experiência se acumula e se homens como Madoff tendem a aparecer de vez em quando, porque estaremos tão interessados em seguir o julgamento do sujeito? Sabemos que ele pode apodrecer na prisão mas parece que queremos ignorar o facto de que muito antes de ele morrer, já nós teremos esquecido que ele existiu e provavelmente não muito depois de ele morrer teremos esquecido aquilo que ele pôde fazer.

Se nós não aprendemos muito com a experiência então não será que alguns de nós estão condenados a cometer os mesmos erros que podiam ser evitados? Mais, aqueles de nós que estão condenados a cometer este erro daqui a muitos anos, provavelmente está-lo-ão a cometer pela primeira vez. O que nos dará direito a comparecer no triste circo mediático na condição de desgraçado que acabou de perder a sua reforma.

A forma como olhamos os acontecimentos é assustadoramente desprovida de perspectiva. Legislar e regular, como, quando e até onde, devia ser debate público neste momento. O mesmo erro estúpido pode acontecer uma e outra vez. Se não se melhorar o sistema o nosso futuro passa por mais uma Dona Branca, um Madoff, um Robert Vesco. Erro. Passa por outro, mas igual.

O jornalistas são os escribas da sociedade. Então porque dão tanta importância a acontecimentos avulsos e inconsequentes? Porque nós pensamos de forma avulsa e inconsequente!

A justiça nas sociedades civilizadas substitui o julgamento popular. o julgamento da história é insubstituível e julga de forma igual sociedades civilizadas ou não. Esse julgamento está bom de ver: o ser humano, não fica muito mais esperto!

The human animal, doesn't really get a lot smarter - Warren E. Buffet.

1 comentário:

  1. Continuamos a procura do "smartest guy in the room"...

    Legislar e controlar é a unica maneira de aumentar o espaço temporal entre o Maddof e a próxima Enron.

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